Sexta-feira, Dezembro 19, 2008 :::
sabe, minha senhora, a vontade que dá na gente é de gritar.
todo fim de ano, para nós, tem imagem de olhos fechados e som de violino. triste. não suportamos. porque enquanto tudo conspira a ver o futuro, me pego mergulhado ao passado. não me arrependo, não, senhora. é que algumas coisas doem. dias de festa, em que, pra mim, queria que fosse de silêncio.
eu sou de ser do contra. parece que gosto. quando todos vão às ruas, comprar, vender, manifestar, eu vou pra trás da cortina. esperar de mim o óbvio, é quebrar a cara. não gosto de nada muito certinho. gosto da minha própria baagunça, organizada em si. odeio luz e foto. sou do escuro e meu sonho é ser sombra. sou chato e dificilmente brigo. mas quando brigo, bato onde mais dói. aprendi.
tenho medo de crianças, porque as perdi em mim. amo-as, porque quero sempre ser uma. sim, já me disseram isso, no auge de um amor fatal.
ah! me peguei numa fase de falar sobre mim, como se desopilasse. acabei me resumindo numa frase:
quando todos esperam que eu chegue sorrindo, eu nem vou.
pré-conceituado por Gaudz :::
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Sexta-feira, Agosto 29, 2008 :::
Acalentadamente te escuto, na sonoridade da carne trêmula
Desesperadamente te nego, por que agora me vejo em ti
Sorrateiramente tento desaparecer, aos poucos, por que sou frágil
Deixo de ser quem sou, como fui, quando quero, onde posso
E ter o dever de poder
Deixar de velar a mim mesmo as minhas dores me dói
Não sei continuar sem descobrir
Não sei descobrir sem recompor
Nem reinventar sem dispor
Mas sei, como sei, desconfiar
É por que ando e vejo, que sinto que penso
Não é pelo simples pensar
O Ainda é um Estado totalmente dramático
Talvez, uma Hipótese murcha
Um diapasão balbuciante e enigmático
Mas te esperar é sonoro, e te ver partir salubre
Cabe a mim reinventar segredos.
pré-conceituado por Gaudz :::
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Segunda-feira, Maio 12, 2008 :::
Joan Miró
Reaver
Poderia ter dito, ainda, outras tantas coisas.
Sorrateiramente abriu a porta do galpão, onde dentro dormiam a esposa e as duas filhas pequenas. Ao ouvir o ruído da porta, a mulher acordou. Com os olhos ainda cegos pelo sono, levou algum tempo para reconhecer o marido. Trazia uma sacola com três laranjas.
- Conseguiu alguma coisa? - perguntou a mulher.
- Pouca coisa.
- Graças a Deus!
A mulher levantou e se pôs a procurar uma faca. O homem sentou aos pés da cama e ficou olhando para as filhas, destruído pela fome. Dormiam como anjos de peitos nus.
- Acho melhor tirarmos o suco primeiro - disse ele à mulher. Podemos picar o bagaço, e damos aos poucos. Separe as cascas para comermos.
Concordou tacitamente.
As meninas comiam, resmungando, enquanto o corpo brigava pelo sono. Depois, quando elas já dormiam, os dois comiam as cascas das laranjas. O homem notou que a mulher havia deixado as sementes sobre um pequeno móvel perto da porta mas não falou nada.
Depois que o sono venceu a fome, dormiram abraçados.
Já de manhã, o homem acordou com as risadinhas brincalhonas das filhas. O galpão estava vazio. Brincavam do lado de fora. Então ele abriu a porta e viu, à direita, sua mulher lavando roupas no tanque e, mais atrás, as risadas das meninas. A mulher virou-se, deu o bom dia, e balançou a cabeça sorrindo enquanto continuava seu trabalho.
As meninas riam e diziam: "Que idéia! Que Idéia!"
Então ele se aproximou e viu que elas cobriam as sementes de terra, como se fossem plantá-las.
- O que foi, filha? - perguntou.
- Papai, não é assim que nascem os golfinhos?
pré-conceituado por Gaudz :::
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Domingo, Fevereiro 03, 2008 :::
O Escaravelho Equilibrista
Alma Rosana tinha a massa do pão entre os dedos, às cinco da tarde de uma terça-feira despretenciosa, quando vieram dar-lhe a notícia sobre o general. Poucos minutos antes Genésia, a empregada, preparara um chá de camomila, como se tivesse previsto a sucessão de acontecimentos que se dariam ao cair da noite.
Anunciaram-lhe: Juvenal Nunes, o grande general das batalhas de Montóvia, havia caído em combate nas proximidades de Eduville. Os governos ainda não tinham mandado as cartas de reconhecimento, muito menos o Papa havia redigido uma oração específica, vinda diretamente dos céus, quando Alma largou da massa, pôs a mão na cintura e disse às duas filhas:
- "É uma boa ocasião para usar aqueles vestidos pretos" - e desmaiou.
"Não importam agora as mais variadas formas que me tentaste para que desistisse de ti, para que fugisse para braços alheios e para a guerra. Demoro a acreditar que me quisesse nas trincheiras tanto quanto quisesse em tua cama. Porque de todas as dúvidas que me ocorreram durante este tempo todo em que estive longe de ti, nunca tive tanta certeza: a de que amo a senhorita."
- "General, os homens de Don Mariano estão a quinze milhas, na escalada de uma milha por hora."
- "Alma, este homem é o mesmo que seduziu tua irmã Maria e que se opôs a todos quando deram a oportunidade de irmos embora daqui. E é quase tão velho quanto teu pai!"
- "É um nunca ter fim essa tua guerra, Juvenal. Eu estou cansada."
- "Falta pouco, Alma. Então teremos nosso terceiro filho. Mas agora estou atrasado, tenho de ir."
Deixaram que o vinagre escorresse do pano, saindo das narinas em direção aos lábios. O gosto amargo lhe acordou.
- "Mamãe Alma, disseram que o corpo pode chegar entre hoje e amanhã. Mas ninguém sabe".
- "Nessas horas ninguém sabe de nada" - respondeu.
Alma chegou ao quarto e se deparou com um ambiente nefasto, cheio de coisas que ainda faziam sentido, que tinham cheiro e cor. Deitou-se, e ao virar o rosto um fio do bigode do general, perdido entre tantas noites de sono, espetou suas bochechas. "Talvez esteja vivo" - pensou.
- "Pouco entendo sobre ninfetas ou putas, minha donzela. O que sei agora é que lhe devo tratar como todas as outras mulheres que desejei nessa vida."
- "Ai, general, por que não me leva junto?"
- "Porque, como diz o ditado, onde se come o pão não se come a carne."
O general deixou a casa de Don Pepe ao amanhecer do dia. Os soldados o viram sair pela porta da frente, abotoando as braguilhas e reapertando o lenço vermelho sobre o pescoço. Deu-lhes os bons dias e foi banhar-se junto aos ciganos.
- "Não é verdade o que falam, mamãe."
- "Alma, este homem não tem dono. Ou melhor, dona. Tudo o que você quiser, ele te dará, enquanto você tiver vontade de ter vontades. O problema é que ele nunca vai se entregar."
- "Vou subir ao altar com ele. Já disse."
- "Não posso deixar que minha filha se case com um comedor de putas!"
- "Como pode me impedir se fizeste exatamente o mesmo?"
Genésia era criança, mas ainda lembra do som abafado do tapa que Alma levara de sua mãe, seis meses antes do casamento. O General chegou à noite e, encontrando o sogro completamente bêbado, alinhavou os pontos do contrato em que comprava a sua filha em troca de duas mil burras. Depois foi ao quarto e pediu a Alma que estivesse pronta para a missa do domingo, pois levariam o convite ao padre.
Juvenal deitou Alma com as mãos presas às suas costas. Ela suava frio. Suava porque o desejava tanto e ao mesmo tempo não sabia o que fazer. O velho parou por alguns segundos e ficou olhando-a no fundo dos olhos, sem dizer nada. Alma sorriu nervosa, mexeu com a orelha do general e, como ele não correspondesse a nada, parou. Então sorriu novamente e perguntou: "O quê?" Então o velho sorriu e foi tirando sua roupa enquanto lhe beijava lentamente.
- "General, é prudente pensarmos em uma saída honrada."
- "Montes, eu ainda não te matei porque é o único aqui que conhece essa palavra: honra. Tem por aí mais alguma palavra dessas bonitas no teu vocabulário? Talvez Mariano lhe poupe a vida para que lhe dite as regras da lei de sustentação, as variantes da hidrologia ou o gosto dos cavalos de carga."
- "Não temos nada a lhe oferecer."
- "Então mande-lhe balas. Dê preferência as de canhão."
Alma decidiu fechar os olhos. Pediu, então, que apagasse as luzes e deixasse o quarto completamente escuro, a qualquer custo. Parou de beijá-la, olhou em volta e saiu da cama para atender o pedido de sua noiva. Ao regressar, encontrou-a nua sob os lençóis, com o corpo trêmulo. Ainda agarrada ao lençol, com os olhos cerrados, Juvenal a abraçou e ficou sentindo seus batimentos cardíacos por um instante. Depois sentiu que Alma lhe apertava contra o peito, esfregando as mãos em sua cabeça, nervosa.
- "Eu sou infeliz, Alma. E só estive com ela porque te busquei. Eu estava louco."
- "Eu não entendo isso, senhor general meu marido. É assim que tu me paga a vigília que faço do meu amor enquanto tu não está em casa? Se deitando com qualquer menina nova que apareça nos puteiros de todo o mundo?"
pré-conceituado por Gaudz :::
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Segunda-feira, Novembro 19, 2007 :::
Ontem, sempre ontem, quando você deitou a cabeça no meu colo, eu me senti incompreendido. Você estava bêbada, rindo muito com aquela página, e o cinema. Sempre é bom que alguém me lembre que eu sou movido à Europeus, daqueles que dizem os moralistas; Credo, que Putaria!
Sempre me julgou novo demais para você, não é? Ah, pena que somos tímidos... tão tímidos. E parece que a vida hoje não aceita mais a timidez como virtude – é um atestado de moralismo, teocentrismo e Crer-no-Amor. Se eu fosse o Eu de anos atrás, talvez agora rolássemos sobre o carpete daquele hotel barato, onde seríamos um corpo só, do ângulo torto de quem nos visse. Mas eu não ando mais gostando de linhas tortas, de vulgaridades e palavras-de-impacto. Gosto da ironia, muito. Da Chantagem, da cafonice de viver nos anos 90, de sonhos a realizar depois do Reveillon. Gosto de sentir que ainda tenho muito a viver e que não há sonhos, nem projetos – há um Destino escrito que acontecerá quer queira, quer não: Deus misericordioso. Como pude pensar isso tudo enquanto você ria com a cabeça no meu colo? Aliás, como pude pensar isso algum dia e aceitá-los? Há que se fazer muito mais o estilo alone porque é covarde e admirável, ao mesmo tempo. É muito mais fácil e menos justificável do que se parece.
Então você parou de rir, o som acabou, a página secou, o cinema ruiu. Ficamos nós e o intervalo caricato de alguns segundos.
E nada aconteceu.
pré-conceituado por Gaudz :::
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