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Em cada coisa sentida, uma teoria. Em cada teoria, um conceito.

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Segunda-feira, Maio 12, 2008 :::



Joan Miró


Reaver

Poderia ter dito, ainda, outras tantas coisas.


Sorrateiramente abriu a porta do galpão, onde dentro dormiam a esposa e as duas filhas pequenas. Ao ouvir o ruído da porta, a mulher acordou. Com os olhos ainda cegos pelo sono, levou algum tempo para reconhecer o marido. Trazia uma sacola com três laranjas.

- Conseguiu alguma coisa? - perguntou a mulher.
- Pouca coisa.
- Graças a Deus!

A mulher levantou e se pôs a procurar uma faca. O homem sentou aos pés da cama e ficou olhando para as filhas, destruído pela fome. Dormiam como anjos de peitos nus.

- Acho melhor tirarmos o suco primeiro - disse ele à mulher. Podemos picar o bagaço, e damos aos poucos. Separe as cascas para comermos.

Concordou tacitamente.

As meninas comiam, resmungando, enquanto o corpo brigava pelo sono. Depois, quando elas já dormiam, os dois comiam as cascas das laranjas. O homem notou que a mulher havia deixado as sementes sobre um pequeno móvel perto da porta mas não falou nada.

Depois que o sono venceu a fome, dormiram abraçados.

Já de manhã, o homem acordou com as risadinhas brincalhonas das filhas. O galpão estava vazio. Brincavam do lado de fora. Então ele abriu a porta e viu, à direita, sua mulher lavando roupas no tanque e, mais atrás, as risadas das meninas. A mulher virou-se, deu o bom dia, e balançou a cabeça sorrindo enquanto continuava seu trabalho.

As meninas riam e diziam: "Que idéia! Que Idéia!"

Então ele se aproximou e viu que elas cobriam as sementes de terra, como se fossem plantá-las.

- O que foi, filha? - perguntou.
- Papai, não é assim que nascem os golfinhos?

pré-conceituado por Gaudz :::

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Domingo, Fevereiro 03, 2008 :::


O Escaravelho Equilibrista



Alma Rosana tinha a massa do pão entre os dedos, às cinco da tarde de uma terça-feira despretenciosa, quando vieram dar-lhe a notícia sobre o general. Poucos minutos antes Genésia, a empregada, preparara um chá de camomila, como se tivesse previsto a sucessão de acontecimentos que se dariam ao cair da noite.
Anunciaram-lhe: Juvenal Nunes, o grande general das batalhas de Montóvia, havia caído em combate nas proximidades de Eduville. Os governos ainda não tinham mandado as cartas de reconhecimento, muito menos o Papa havia redigido uma oração específica, vinda diretamente dos céus, quando Alma largou da massa, pôs a mão na cintura e disse às duas filhas:

- "É uma boa ocasião para usar aqueles vestidos pretos" - e desmaiou.

"Não importam agora as mais variadas formas que me tentaste para que desistisse de ti, para que fugisse para braços alheios e para a guerra. Demoro a acreditar que me quisesse nas trincheiras tanto quanto quisesse em tua cama. Porque de todas as dúvidas que me ocorreram durante este tempo todo em que estive longe de ti, nunca tive tanta certeza: a de que amo a senhorita."

- "General, os homens de Don Mariano estão a quinze milhas, na escalada de uma milha por hora."

- "Alma, este homem é o mesmo que seduziu tua irmã Maria e que se opôs a todos quando deram a oportunidade de irmos embora daqui. E é quase tão velho quanto teu pai!"

- "É um nunca ter fim essa tua guerra, Juvenal. Eu estou cansada."
- "Falta pouco, Alma. Então teremos nosso terceiro filho. Mas agora estou atrasado, tenho de ir."

Deixaram que o vinagre escorresse do pano, saindo das narinas em direção aos lábios. O gosto amargo lhe acordou.

- "Mamãe Alma, disseram que o corpo pode chegar entre hoje e amanhã. Mas ninguém sabe".
- "Nessas horas ninguém sabe de nada" - respondeu.

Alma chegou ao quarto e se deparou com um ambiente nefasto, cheio de coisas que ainda faziam sentido, que tinham cheiro e cor. Deitou-se, e ao virar o rosto um fio do bigode do general, perdido entre tantas noites de sono, espetou suas bochechas. "Talvez esteja vivo" - pensou.

- "Pouco entendo sobre ninfetas ou putas, minha donzela. O que sei agora é que lhe devo tratar como todas as outras mulheres que desejei nessa vida."
- "Ai, general, por que não me leva junto?"
- "Porque, como diz o ditado, onde se come o pão não se come a carne."

O general deixou a casa de Don Pepe ao amanhecer do dia. Os soldados o viram sair pela porta da frente, abotoando as braguilhas e reapertando o lenço vermelho sobre o pescoço. Deu-lhes os bons dias e foi banhar-se junto aos ciganos.

- "Não é verdade o que falam, mamãe."
- "Alma, este homem não tem dono. Ou melhor, dona. Tudo o que você quiser, ele te dará, enquanto você tiver vontade de ter vontades. O problema é que ele nunca vai se entregar."
- "Vou subir ao altar com ele. Já disse."
- "Não posso deixar que minha filha se case com um comedor de putas!"
- "Como pode me impedir se fizeste exatamente o mesmo?"

Genésia era criança, mas ainda lembra do som abafado do tapa que Alma levara de sua mãe, seis meses antes do casamento. O General chegou à noite e, encontrando o sogro completamente bêbado, alinhavou os pontos do contrato em que comprava a sua filha em troca de duas mil burras. Depois foi ao quarto e pediu a Alma que estivesse pronta para a missa do domingo, pois levariam o convite ao padre.

Juvenal deitou Alma com as mãos presas às suas costas. Ela suava frio. Suava porque o desejava tanto e ao mesmo tempo não sabia o que fazer. O velho parou por alguns segundos e ficou olhando-a no fundo dos olhos, sem dizer nada. Alma sorriu nervosa, mexeu com a orelha do general e, como ele não correspondesse a nada, parou. Então sorriu novamente e perguntou: "O quê?" Então o velho sorriu e foi tirando sua roupa enquanto lhe beijava lentamente.

- "General, é prudente pensarmos em uma saída honrada."
- "Montes, eu ainda não te matei porque é o único aqui que conhece essa palavra: honra. Tem por aí mais alguma palavra dessas bonitas no teu vocabulário? Talvez Mariano lhe poupe a vida para que lhe dite as regras da lei de sustentação, as variantes da hidrologia ou o gosto dos cavalos de carga."
- "Não temos nada a lhe oferecer."
- "Então mande-lhe balas. Dê preferência as de canhão."

Alma decidiu fechar os olhos. Pediu, então, que apagasse as luzes e deixasse o quarto completamente escuro, a qualquer custo. Parou de beijá-la, olhou em volta e saiu da cama para atender o pedido de sua noiva. Ao regressar, encontrou-a nua sob os lençóis, com o corpo trêmulo. Ainda agarrada ao lençol, com os olhos cerrados, Juvenal a abraçou e ficou sentindo seus batimentos cardíacos por um instante. Depois sentiu que Alma lhe apertava contra o peito, esfregando as mãos em sua cabeça, nervosa.

- "Eu sou infeliz, Alma. E só estive com ela porque te busquei. Eu estava louco."
- "Eu não entendo isso, senhor general meu marido. É assim que tu me paga a vigília que faço do meu amor enquanto tu não está em casa? Se deitando com qualquer menina nova que apareça nos puteiros de todo o mundo?"

pré-conceituado por Gaudz :::

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Segunda-feira, Novembro 19, 2007 :::




Ontem, sempre ontem, quando você deitou a cabeça no meu colo, eu me senti incompreendido. Você estava bêbada, rindo muito com aquela página, e o cinema. Sempre é bom que alguém me lembre que eu sou movido à Europeus, daqueles que dizem os moralistas; Credo, que Putaria!
Sempre me julgou novo demais para você, não é? Ah, pena que somos tímidos... tão tímidos. E parece que a vida hoje não aceita mais a timidez como virtude – é um atestado de moralismo, teocentrismo e Crer-no-Amor. Se eu fosse o Eu de anos atrás, talvez agora rolássemos sobre o carpete daquele hotel barato, onde seríamos um corpo só, do ângulo torto de quem nos visse. Mas eu não ando mais gostando de linhas tortas, de vulgaridades e palavras-de-impacto. Gosto da ironia, muito. Da Chantagem, da cafonice de viver nos anos 90, de sonhos a realizar depois do Reveillon. Gosto de sentir que ainda tenho muito a viver e que não há sonhos, nem projetos – há um Destino escrito que acontecerá quer queira, quer não: Deus misericordioso. Como pude pensar isso tudo enquanto você ria com a cabeça no meu colo? Aliás, como pude pensar isso algum dia e aceitá-los? Há que se fazer muito mais o estilo alone porque é covarde e admirável, ao mesmo tempo. É muito mais fácil e menos justificável do que se parece.
Então você parou de rir, o som acabou, a página secou, o cinema ruiu. Ficamos nós e o intervalo caricato de alguns segundos.
E nada aconteceu.

pré-conceituado por Gaudz :::

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Domingo, Novembro 04, 2007 :::



Eu quero um Wassily Kandinsky.

Foi muita bondade da natureza de Deus deixar-me a sós comigo mesmo um dia desses. Perguntei-me, com ar de desgraça:
- Quando é que descobrimos estar apaixonados?
- É uma boa pergunta – respondi. Mas, diabos, você está apaixonado, é isso?
- Calma, não, quer dizer, não sei. É por isso que estou te perguntando. Se você soubesse, enfim, quando se dá esse negócio de a gente dizer “acho que estou apaixonado”, não na frente da pessoa pela qual nutrimos isso, mas em frente ao espelho, naquela manhã de domingo, quando você, ao invés de pensar em fazer a barba, está pensando no jeito em que ela penteia o cabelo, e que é tão lindo...
- Mas, espera, não é melhor saber estar apaixonado, do que saber QUANDO estar apaixonado?
- Não, não. Vou te explicar: a gente não pode dizer que está apaixonado ENQUANTO não souber que o está. Existe, eu acho, algum momento, uma espécie de era mesozóica que antecede a paixão, que depois vai anteceder o amor, e depois o casamento e por fim o divórcio.
- Tudo bem, mas o que é mais importante? Saber estar ou saber quando estar?
- O primeiro depende do segundo, é o que estou querendo te explicar há algum tempo.
- Então, pensando assim, acho que a gente passa a ficar apaixonado quando começa a pensar na pessoa durante um tempo desproporcionalmente maior à sua importância, dada a conclusão de que essa pessoa, até um determinado tempo atrás, não fazia a menor diferença.
- É uma boa teoria. Estou aqui pensando se ela tem algum erro...
- Ou exceção que confirme a teoria.
- Deve haver.
- Deve.
- Então, vamos aos fatos: quem é a moça?
- Ah, pombas, tem nada disso não. Só perguntei por perguntar.
- Pára com isso, eu te conheço muito bem. Você sabe que eu sou teu amigo, você pode confiar em mim, eu não conto pra ninguém...
- Não tem ninguém não.
- Pelo amor de Deus!
- É que esses dias quando eu a vi no corredor da faculdade, vindo à minha direção, meu coração acelerou um pouco, eu tive vontade de saber se estava bem-vestido, com a camisa alinhada, o sapato sujo, o cabelo...
- Arrá!
- E ela deu um oi, a gente falou dois minutos e ela entrou na sala. Eu fui ao banheiro. Fiquei pensando, me acalmei, pensei: “estou imaginando coisas”.
- Eu sei, seu sei...
- Então voltei pra sala, e ela estava lá num canto e quando me viu fez um sinal, me chamou, eu fiz que não vi (é que eu não gosto de sentar naquele lado, sabe?), mas não teve jeito... tinha um maldito lugar ao lado do dela.
- E aí, me conta?
- Nada demais. Eu acho. A gente ficou cochichando a aula inteira. Eu fiz de tudo, durante muito tempo, pra demonstrar que queria falar com ela, sim, mas que Pitágoras era importante também. Mas eu queria mesmo é que a aula se fodesse.
- Sei.
- Conversa foi e voltou, caímos até de falar sobre pais, mães, presença, ausência e morte deles. Você sabe como isso é polêmico pra mim. Digo, pra nós.
- Arrã.
- Falou dela bastante. É um lance conturbado. Acho que eu estava inspirado pelos grandes gregos e filosofei pra caralho.
- Ela também?
- Basicamente eu acho que ela ficou espantada com as minhas convicções. Com o que eu falei. Não são coisas que os homens falam para as mulheres. A gente geralmente só comenta com amigos. O que eu acho, até, uma covardia.
- Por incrível que pareça, também acho.
- Resumindo, foi isso.
- Claro que não, eu sei que tem mais, pode contar.
- Tem não.
- Você sabe que não pode mentir pra mim. Eu acabo descobrindo tudo. E aí fica pior pra você.
- Aconteceu que, num determinado momento, eu olhei para ela e ela estava olhando para outra coisa. Foram, aproximadamente, os três segundos mais longos e deliciosos dos últimos tempos. E desde então, eu tenho pensado nas coisas com mais significado, na vida com mais esperança, na carne com mais gosto, na água com mais sabor e no ar com mais cheiro.

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Sábado, Outubro 06, 2007 :::


.ensaio mil cento e quatorze ponto cinco.

O telefone da sala número sete do Ministério da Educação tocou naquela tarde quente de agosto, no exato momento em que no térreo, Terezinha Alforretes imaginou ter ouvido sua mãe lhe chamar no quintal da casa de sua infância.

- Senhor Ministro, – avisou a secretária – o Senhor Malagrete está na recepção.
- Mande-o entrar – respondeu.

A professora Lucía Milagres terminava a aula de História naquela cidade à cinco mil quilômetros da capital do país, quando ouvira o estrondo inconfundível de um disparo de arma de fogo. As crianças da quarta série da Escola de Ensino Fundamental Nossa Senhora das Dores começaram a gritar. Logo se seguiram outros dois tiros e, alguns segundos depois, já não se podia contar a quantidade de projéteis que cruzavam ao lado da janela da sala de aula número duzentos e nove. João Vitor Manuel de Carlos lembraria, eternamente, o cheiro dos parquets da sala de aula quando, sob as instruções da professoa Lucía, jogara-se neles, de peito, junto com os colegas. Era o único que não chorava.

Malbaiot Stunnegarit espanava a figura de um imenso leopardo amarelo pintado sobre a paisagem instintiva de um vulcão em erupção quando viu passar em frente à rua um caminhão de bombeiros com as sirenes ligadas. Largou o espanador e telefonou para o marido. O celular estava desligado. Voltou aos seus afazeres, mas, alguns minutos depois, viu passar algumas viaturas da polícia e também outros dois carros em alta velocidade. A casa silenciou, embora chovesse, quase ininterruptamente, em todo o sul do país há dois dias.

Funcionário do governo há anos, dedicado pai de família temente a Deus, Alberto Malagrete entrou na sala do Ministro da Educação sorrindo.

- Estamos à época da licitação da merenda escolar, senhor – disse ao Ministro.
- Compras, Malagrete?
- Sim, senhor.
- Coisas de mulher! – disse o Ministro, sorrindo.
- Então vai ser um prazer levar este trabalho para casa – respondeu, sorrindo, Malagrete.

Ao cair da tarde, a casa de Maria Cintra Milagres, enfeitada para as comemorações do décimo aniversário de casamento da sua filha Lucía, começava a receber os primeiros convidados – para o desespero de Maria. Sem saber o que dizer aos convidados, Pedro, marido de Lucía, tentava mais uma vez ligar para o celular da esposa. Do outro lado da cidade, sob a mira de uma arma, feita refém juntamente com toda a quarta série da Escola Nossa Senhora das Dores, Lucía tentava explicar aos seus algozes a situação da pequena Antônia Leprecat, paciente da diabete.

Alguns gritos começavam a pipocar, lá no fundo da rua, quando Malbaiot Stunnegarit lançou-se à porta da frente, trancando-a. Fez o mesmo durante os quinze minutos seguintes, com as outras portas e janelas, trancando todas as entradas possíveis, desligando todas as luzes da casa. Desligou a televisão e o rádio, e o silêncio geral da casa fazia aumentar os gritos de horror que vinham da rua. Sentou-se no sofá da sala, olhando para o telefone perto do móvel. Tentou ligar mais uma vez para o marido, sem sucesso.

Carmem Leandra Matias sentiu-se no dever de avisar Maria Cintra Milagres que a água que fervia sobre o fogão estava prestes a secar, devido a falta de atenção da dona da casa. Ainda mais constrangida, Maria não conseguia pensar em muita coisa. Ligou mais uma vez para o celular de Lucía, que não atendeu ao chamado. Resolveu deixar um recado na caixa de mensagens e teve como resposta, durante o resto da noite, apenas o silêncio – que se fez maior quando o último convidado foi embora sem confraternizar com a dona da casa. Limpando os restos de comida dos pratos, Pedro ligou a televisão e viu a cobertura da imprensa sobre uma escola na periferia da cidade que sofria com a ação de alguns fugitivos da penitenciária municipal que faziam, já por algumas horas, uma quantidade indeterminada de reféns dentro de uma sala. Tratava-se da quarta série da escola e, segundo informações dos funcionários, os bandidos mantinham Lucía Milagres

incontinuável.

pré-conceituado por Gaudz :::

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