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Quinta-feira, Junho 21, 2007 :::



Rodin

Poema menor a certa altura pouca



Decidi reafirmar meu amor por nós. Decidi amar a mim, mas não hoje. Talvez eu busque um nós por aí, e não mais em mim. Porque, em mim, não sei mais o que sou capaz de encontrar. Confesso, a palavras baixinhas: tenho medo mesmo é de procurar. Me procurar.
Se pelo menos eu chegasse em casa hoje ou amanhã e te visse deitada no sofá. É possível que eu não fizesse nada, nem entrasse à sala. Tão provável eu ser assim, não? Mas hoje você me falou de um poema que leu por aí e eu fiquei pensando que nunca mais escrevi um poema para você nem para ninguém. E que é sempre tarde, porque eu não vivo desse Tempo todo. Eu não quero mais tempo nenhum.
Vamos fazer de conta que o perfume, apenas o perfume dos nossos corpos têm vida. Queria tanto ter mais você, mais de você, aqui. Não é falta, não. É amor. Eu queria tanto saber se você comeu, se tomou banho. O que você leu de novo hoje? Você me quer agora? Eu posso tomar cinco minutos do seu tempo e te trazer para o meu mundinho velho confortável, esse mundinho almofadas que eu criei para fazer você ficar aqui mais cinco minutos?
Eu pensei que poderia te levar no colo para o trabalho e te esperar na saída, um dia, de surpresa. Mas te beijar apenas o pescoço. Silêncio, sempre, dentro do carro. Silêncio, pra não violar essa vontade de parar dentro da tua roupa, com os dentes cheios de você. E amanhã a gente poderia casar.
Você se comporta? Eu prometo que não.

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Terça-feira, Junho 19, 2007 :::



Pegue 6 dias de folga. Ligue para a estação rodoviária e compre uma passagem no primeiro ônibus para El Mirante de las Árboles. (sempre na poltrona 7 ou 13. Nunca na 41) Chegando lá, não faça nada antes de montar a barraca. Não se importe com o vai-e-vem das ruas, com os perigosos carros, trens e helicópteros. Não dê bola aos videntes. Jamais dê de beber aos répteis. Apenas cuide, se puder, para que seja lá um lugar alto, não se importanto, contudo, com as avenidas.
Pegue um livro de Paulo Coelho ou outro qualquer e se detenha nele, sem quere entendê-lo. É importante que isto seja feito em jejum. Fuja das tentações das comidas do povoado - elas são transgressoras e raramente contribuem para os fins aos quais se destinam. Queira saber, sempre, de estar sozinho. Ou, se puder, longe de qualquer pessoa séria. Ao cair da noite, desjejue. Faça-o em silêncio para não aturdir as arapucas das moças casadoiras. Lembre-se de entoar cânticos, qualquer um deles, apenas na sobremesa. Pense, então, no grito dos loucos e no Desespero. Abra a garrafa d'água e despeje-a sobre seu abdôme nu. Não tente lambê-lo. Pegue agora papéis Klinex e ponha-os por cima, como se fizessem as vezes do emplastro poroso Sabiá. Não adquira nada dos ciganos. Não procure avisar a ninguém sobre a lua ou seus objetivos. Pense um pouco em sexo e vá dormir sem banhar-se. Dê corda ao relógio. Três vezes.
Ao acordar, pense num mundo melhor e possível, esforçando-se para colocar nele o Judiciário Brasileiro. Pense o que fazer com as segundas-feiras. Não amaldiçoe a língua alemã. Pense na mamãe e no papai fornicando depois de anos. Tente não reprimir desejos - pelo menos uma vez na vida. Recolha-se e vá dormir um pouco, afinal, você está de folga.

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Quinta-feira, Junho 14, 2007 :::


Diário de Ruanita.

3 de agosto.

Rostos.

Acontece de eu te ver no rosto dos outros, quando a porta do elevador se abre. Mamãe falou ontem que a esperança é a última que morre porque se esconde atrás da ignorância. Eu não soube o que dizer, Eles falavam de Senor Abravanel na tevê. Mas acho que essa ignorância, a que se refere ela, é a mesma que nos livra de psicólogos, psiquiatras e clubes de swing.
Tenho sonhos que se contradizem ainda quando em formação. Papai negou-me ontem o pedido de desculpas. Ei de ser aquela que o nega, também, como se não existisse mais, para o resto da vida. A passagem de uma alma, mais morta do que nunca, no horizonte das minhas ignorâncias. Eu tenho medo.
É como falar aos poucos, a mesma coisa, sempre. Ratificamo-nos quando falamos de sonhos. Porque não são sonhos nossos, são de outros, prontos, embalados. São o que sonharam para nós. É nisso que eu penso quando eu me prendo a pensar. Do que estou abrindo mão? Quanto do que deixo para trás a cada dia sou eu, realmente, em minhas ânsias gentis? Eu sou pequena a ponto de me querer feliz. Porque não volto ao ponto de me fazer querer e ser sonho, dos pequenos que fossem, já que os mágicos estão em extinção porque extinguo-os. São frutas-do-conde no cerrado das queimadas.
Tenho o poder de me desdizer. Só eu.

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